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Unidade 2
Precisamos melhorar o vínculo e o compromisso de profissionais e usuários para tornar as equipes de saúde da família e de atenção básica realmente de escolha prioritária pela população. Para isso, um importante passo a ser dado é identificar quem é a população sob responsabilidade da sua equipe, quais suas características específicas e de que forma essa população interage com o serviço de saúde. Isso será importante para possibilitar o estabelecimento do fluxo de trabalho na sua unidade. Além disso, reconhecer quem são os profissionais que integram a equipe, suas potencialidades e fragilidades também é de extrema importância para que se realize uma capacitação e formação adequada com o intuito de preparar todos para acolher, levando sempre em conta a formação profissional e as implicações desta para a assimilação de conceitos, condutas e protocolos a serem seguidos.
É possível avaliar a comunidade pela qual se é responsável e reconhecer a presença de condições geradoras de vulnerabilidades (riscos) que podem requerer intervenções no mesmo dia (médicas ou não), agendamento para data próxima ou construção de projeto terapêutico singular em curto prazo, mesmo com risco biológico baixo.
Avaliar integralmente os usuários e analisar sua vulnerabilidade é difícil. Não existe um protocolo definido como existe para classificar o risco de patologias. É preciso ter sensibilidade para fugir exclusivamente do ser biológico e identificar aspectos sociais, psicológicos, econômicos. No momento em que o usuário procura ajuda ele está, geralmente, mais aberto para estabelecer diálogo com a equipe de saúde, que deve aproveitar a oportunidade. Um exemplo para avaliar as experiências/ vivências do problema de saúde e vulnerabilidade são as questões apontadas no Caderno de Acolhimento (BRASIL, 2011, p.35), que propõe a escuta do usuário: 1) O que você acha que está acontecendo? 2) Por que essa situação incomoda você? 3) Como essa situação interfere na sua vida? 4) Como você percebe que a equipe pode ajudar hoje? Essas questões apresentam uma ideia da forma de conversar com os usuários, mas devemos tomar cuidado para que não seja uma investigação, e sim que demonstre nosso desejo de escutar, ajudar, cuidar.
Identificar o contexto em que está envolvido na necessidade de saúde percebida é imprescindível para uma resposta positiva pela equipe.
O trabalho em equipe é fundamental para o sucesso dessa ação, desde a recepção ou portaria até a gestão da unidade, podendo identificar as situações de maior risco ou de sofrimento intenso. É fundamental que toda a equipe tenha sua capacidade clínica ampliada, qualificando a escuta de forma a reconhecer riscos e vulnerabilidades e realizar ou acionar intervenções.
A agenda dos profissionais e da equipe deve ser organizada para atender às múltiplas demandas de sua área de abrangência, desde o atendimento clínico agudo até a programação para acompanhar o seguimento do cuidado de indivíduos e grupos específicos, realização de grupos, visitas domiciliares, reuniões de equipe e com a comunidade, ações de educação permanente e promoção da saúde, mas esta programação deve ser realizada segundo as necessidades individuais e coletivas, rompendo com a lógica de pacotes pré-determinados como, por exemplo, as atividades clássicas de educação em saúde, sem diagnóstico prévio de necessidade.

A clínica ampliada busca o ajuste entre os recortes teóricos de cada profissão às necessidades dos usuários, sem privilegiar alguma matriz de conhecimento especificamente. A complexidade do cuidado exige o reconhecimento da necessidade de compartilhar diagnósticos e problemas, assim como propostas de solução. É preciso estabelecer diálogo e uma clínica compartilhada para alcançar êxito. Requer assim a compreensão ampliada do processo saúde-doença para construção compartilhada dos diagnósticos e das terapêuticas, de forma articulada e com apoio entre os profissionais da equipe (BRASIL, 2010). Saiba mais em: http://migre.me/j4hza
Cooperação com a equipe e os usuários é indispensável para que a inserção do acolhimento seja facilitadora do cuidado, e não um obstáculo. Não é uma atividade simples e sim complexa, que requer compromisso e responsabilização de todos. Ainda, para que se efetive a capacitação da equipe para compreender a dinâmica que envolve o acolhimento, deve ser estendida para a população sob responsabilidade da equipe, com o intuito de que se possa pensar e discutir em conjunto, fomentando espaço para a participação popular, mas principalmente, inserindo os diversos sujeitos na construção de uma nova forma de se fazer saúde.
Nas unidades básicas, a recepção é o primeiro contato e havendo situações imprevistas, cuja avaliação e definição de ofertas não sejam possíveis de serem resolvidas neste local, é necessária a criação de um espaço adequado para escuta, análise e definição do cuidado, com base na necessidade de saúde e, em alguns casos, intervenções. É preciso cuidado para não expor aquele que estamos atendendo. Sugerimos que o acolhimento com avaliação mais detalhada seja realizado em uma sala que garanta privacidade e tranquilidade.
Para a promoção de acesso com qualidade é preciso muito mais do que receber bem os usuários e garantir uma consulta no dia. É preciso repensar a 19 oferta de serviços por nossa equipe, unidade, município. Estabelecer horário para atendimento programado, capacitar a equipe para a escuta qualificada e ter uma sala para acolhimento e classificação de risco pode ser um problema se o que oferecemos são exclusivamente consultas médicas. Precisamos repensar a estrutura da equipe e identificar se a atenção à saúde que prestamos está realmente voltada para as demandas da população pela qual somos responsáveis. E isso é acolher no sentido mais amplo: ir além de receber o usuário que nos procura por uma necessidade imediata, mas ficar atento a esta necessidade buscando enxergar o contexto envolvido, dando respostas que incluam a integralidade desses aspectos, o que exige pró-atividade (antecipação e responsabilização), visão e ações ampliadas.
Limitações e fragilidades como o excesso de pessoas sob responsabilidade das equipes de ABS são determinantes quando buscamos reorganizar a lógica assistencial. O território de atuação das equipes geralmente é distribuído de acordo com a disposição geográfica e proximidade da unidade de saúde de referência com as famílias adscritas, respeitando um limite populacional. Hoje, o Ministério da Saúde já determina, por meio da Política Nacional de Atenção Básica, que o número de pessoas adscritas por equipe da Estratégia Saúde da Família seja de, no máximo, 4 mil pessoas, mas preferencialmente 3 mil. Em 2013, por meio da portaria 2.355, o Ministério da Saúde passa a permitir que o cálculo do teto máximo das equipes de Saúde da Família seja feito tendo como população mínima 2 mil pessoas, o que permite uma outra dimensão na lógica de pensamento frente ao trabalho destas equipes. Para unidades básicas de saúde com Saúde da Família, o total de habitantes vinculados deve ser de até 12 mil; já para unidades sem Saúde da Família, o total pode ser de até 18 mil habitantes sob sua responsabilidade.
É necessário que se estabeleça o que a unidade terá condição de atender e o que poderá ser encaminhado conforme protocolo estabelecido entre todos os pontos da rede, pois, se cada unidade estabelece seu fluxo sem pactuar com os demais serviços, o usuário começa e peregrinar entre uma unidade e outra sem ter sua necessidade atendida. Para isso, é importante conhecer a rede de serviços que existe em seu município e região.