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Saúde Mental
Na perspectiva da Felicidade Interna Bruta (FIB), o tempo e o valor de seu uso exercem significativa importância para produção de vida no território, contemplando assim o indivíduo, a família e a comunidade.
A vida contemporânea marcada pelo crescente automatismo do cotidiano e alta necessidade de consumo tem favorecido um tipo de relação em que os sujeitos são reféns do seu próprio tempo. Como consequência, induzem certa emergência e imediatismo na vida cotidiana, que se traduzem em precipitações nas ações e reações das pessoas, e como desdobramentos, o que vemos principalmente nos grandes centros urbanos, é uma aceleração no andar da vida e o mau uso do tempo como resultado final.
Além disso, o tempo que se perde no trânsito, o excesso de trabalho, a pressão por atualização constante, o tempo do indivíduo que não coincide com o tempo das suas relações afetivas mais próximas, dentre outros, provocam condições muito desfavoráveis na qualidade de vida destas pessoas e que repercutem também na sua saúde.
Contudo, o mau uso do tempo não acontece somente pelo excesso de atividades. Em muitas comunidades ocorrem problemas decorrentes da quase ausência de ofertas de atividades para ocupação do cotidiano, e aqui não se defende a ocupação somente pelo entretenimento (que tem como origem “manter dentro”), mas a possibilidade de ofertar atividades que tenham como objetivo oferecer espaços de pertencimento e desenvolvimento comunitário. Apresenta-se como maior público nesta situação adolescentes, desempregados e idosos.
Vale lembrar que se considera fundamental a valorização do tempo ocioso, mas de forma a que possa servir ao indivíduo para sua satisfação pessoal, sua restruturação psicofísica, tempo para lazer, dentre outros. Ademais, se o excesso de atividades e aceleração da vida pode produzir quadros de sofrimentos mentais como a ansiedade, inquietação, euforia e pânico, a ociosidade pode produzir a letargia, a depressão, o desânimo e a falta de perspectiva de vida.
Acionar e despertar os indivíduos para darem valor de uso ao seu tempo pode ter um potencial educativo considerável, não só para sua própria saúde, mas também para a sua comunidade, promovendo qualidade de vida nesse território e adicionando aspectos que favoreçam a felicidade do coletivo.
Nesta avaliação do uso do tempo é importante considerar que o tempo de um adolescente na comunidade é diferente do tempo de um adulto desempregado, assim como o de um idoso aposentado. Saber cartografar as subjetividades geradas pelo mau uso desse tempo em diferentes ciclos de vida, pode ser delineador de ações especificas junto a este grupo de indivíduos.
As crianças ultimamente também sofrem com um tempo esvaziado. A partir do medo generalizado que se estabelece, mesmo nas cidades menores, quanto a violência e o uso de drogas, restringe-se cada vez mais a circulação infantil, reduzindo-a ao ambiente residencial, tornando-as muitas vezes reféns da televisão e do consumismo. O brincar, tanto sozinho quanto compartilhado tem um papel essencial no desenvolvimento infantil, permitindo a criança apreender o mundo de forma criativa, encontrando-o e lentamente inventando nele o seu lugar. A própria circulação pelo bairro é parte essencial dessa descoberta/invenção de mundo e sua restrição acaba dificultando a construção do conceito de espaço público e o advento de uma cidadania plena. A equipe de saúde da família pode auxiliar propiciando espaços - ou potencializando os existentes - onde as crianças do bairro possam se encontrar e brincar, utilizando de praças e calçadas, da sala de grupos da unidade, ou de salões comunitários. Pode se convidar os mais velhos para participar e ensinar brincadeiras e cantigas tradicionais da região.
É fundamental e prioritário analisar de forma crítica o uso do tempo da mulher. A ocupação do tempo feminino está fortemente associado a um papel socialmente construído, no qual ela precisa responder as demandas de mãe, avó e esposa. Certamente, há avanços na afirmação de seus desejos e em sua realização pessoal, no entanto, não podemos deixar de ressaltar que historicamente o lugar social da mulher é o espaço privado de seu lar e sua principal função é o cuidado.
Atualmente, a discussão baseia-se na carga imposta às mulheres devido as duplas/triplas jornadas, pois ao entrar de forma definitiva no mercado de trabalho, o espaço doméstico e o cuidado dos filhos não passaram a ser compartilhados, permanecendo como de responsabilidade feminina. Daí, podemos inferir que a gestão de seu tempo, apesar das novas possibilidades de escolha, ainda permanece restrita, pois considera-se ainda que é sua função prover a família e cuidar do lar.
Há possibilidade de problematizar este tema em grupos específicos por meio de, por exemplo, rodas de conversa, terapia comunitária, e/ou abordagens individualizadas que trabalhem a complexidade e a subjetividade do assunto, favorecendo o reconhecimento de que a boa gestão do tempo é fundamental para a promoção da qualidade de vida.
A conscientização de valores sociais que culminem em bons investimentos do tempo e que consolidem elementos para uma boa vitalidade comunitária são estratégias importantes para a promoção do cuidado na ESF. Os NASF podem propor e apoiar praticas neste sentido, tanto para fins pedagógicos quanto para fins assistenciais, inclusive problematizando com a equipe de saúde da família sobre o bom uso de seu tempo de trabalho e de como se planejar para isso. Portanto, deve ser objetivo da ESF produzir, tanto no âmbito coletivo quanto no âmbito individual, parâmetros e ações que referenciem a sua comunidade na boa gestão do uso de seu tempo