A cultura é um conceito complexo que não pode ser facilmente explicado e quantificado. Embora se manifeste por diversas formas no território é estreita sua relação com o senso de bem-estar.  Diversos elementos culturais básicos, como linguagem; senso de identidade; valores, crenças, normas e costumes são perceptíveis na dinâmica que relaciona pessoas, grupos e instituições à sociedade. Essa dinâmica se manifesta por várias atividades culturais, por exemplo: nas áreas da música, esportes e religião. Essas atividades são representações do pertencimento do indivíduo num grupo e refletem os saberes e práticas que se faz por tradição. São expressões sobre o modo como as pessoas constituem seus comportamentos e como esses comportamentos serão percebidos pelo grupo Podem estar presentes na sociedade em geral ou incorporados num dado espaço geográfico.

As atitudes ou comportamentos individuais têm como referencial a dinâmica cultural. A cultura supõe uma interação entre individuo, instituições, a sociedade e o ambiente onde se vive e, em linhas gerais, o ser humano tem o seu comportamento influenciado pela cultura. Podemos perceber no caso ilustrativo da favela Curumatã, a violência corriqueira, tão incrustada que atinge dimensões culturais. Vemos muitos cidadãos acostumados com aquilo tudo,  que indiferentes transitam sem demonstrar incômodo.

Fundamentalmente, atuar no âmbito cultural pressupõe uma revisão constante de valores para o desenvolvimento do ser humano, visando salvaguardar e fortalecer práticas identitárias favoráveis ao bem estar de grupo sociais, desenvolver a resiliência, promover a diversidade, favorecer que os sujeitos assumam posicionamentos políticos frente aos impactos sociais e ambientais próprios da modernização e da globalização. Pessoa saudável é aquela que, ativamente estabelece novas normas e regras com seu grupo social para relacionar-se com seu entorno e, eventualmente, modificá-lo, desenvolvendo novas estratégias para viver mais e melhor.

Em Saúde Mental a Reforma Psiquiátrica propõe uma mudança cultural que não é especifica da saúde, mas de toda a sociedade. A superação do modelo de atenção centrado nos hospitais psiquiátricos requer a reflexão sobre alguns mitos e conceitos persistentes que precisam ser enfrentados. Um conjunto de ideias entendidas como verdades orientavam práticas profissionais nos manicômios, que ainda persistem como herança cultural, mesmo no contexto da atenção psicossocial. Estas ideias funcionam como crenças normativas que regulam a conduta das pessoas. Vejamos:

- Norma e normalidade: comportamentos fora do padrão são considerados antinaturais porque escapam à norma. Tudo que escapa a norma é tido como infração. Por sua vez, a infração está susceptível à punição que, em nosso sistema legal, culmina, principalmente, no isolamento e privação de direitos. A mesma lógica é aplicada no modelo manicomial. Tratamento, punição, isolamento e privação de direitos tornam-se equivalentes.

- Superação do modelo biomédico e ambulatorial: A cultura biomédica ainda é imperativa na lógica da atenção em saúde, a partir de ações protocolares, do esquema queixa-conduta, do especialismo e de prática centrada na doença.

- Julgamento de valores e hierarquização das relações: conhecimento formal, posses, capacidade produtiva são alguns valores que atribuem respeitabilidade e acesso a privilégios e poder. Por essa lógica, desqualifica-se quem não os apresenta destituindo-os de poder e palavra.

- Transtorno mental e periculosidade: Por traz do diagnóstico de transtorno mental está o rótulo da periculosidade que recai sobre a pessoa em sofrimento psíquico. É importante que se esclareça que a agressão e violência estão relacionadas ao contexto da situação e das experiências de vida, e não ao adoecimento. Atos de violência nas sociedades são cometidos, comumente, por pessoas consideradas “normais”.

Pensando na comunidade de Curumatã vemos alguns indícios que levam a refletir sobre a realidade daquela comunidade. A indiferença das pessoas que circulam pela viela do sapateiro ilustra, de certo modo, a passividade frente à situação de uso de drogas e violência corriqueira naquele lugar. Podemos considerar, nessa análise, a dinâmica das relações que levam as pessoas a naturalizarem atitudes tomadas como necessárias à sobrevivência, mas que, interferem silenciosa e progressivamente, na qualidade de vida, na autoestima individual e da comunidade, bem como na percepção que se tem do mundo.

Toda intervenção na dimensão cultural possui efeitos de longo prazo. Propostas de mudanças dessa ordem podem vir acompanhadas de forte resistência demandando ações coletivas difundidas por todo o território, além de individuais.  Pode se considerar a adoção de estratégias que promovam a reflexão sobre ética, revisão de atitudes pessoais e regras institucionais, compartilhamento de problemas coletivos, dimensionamento de limitações pessoais e institucionais, implementação de iniciativas que promovam protagonismo de grupos e pessoas para práticas transformadoras.

Última atualização: quarta-feira, 29 março 2017, 10:35 AM