As práticas relacionadas à Vitalidade Comunitária visam estreitar os laços comunitários que valorizem a identidade e a autonomia comunitária para o incremento da coesão social.

Os elementos essenciais do conceito de comunidade e sociedade são os laços que unem as pessoas num sentimento comum de identidade e propósito. A ligação de indivíduos e famílias com os seus vizinhos, propicia o despertar de uma vontade comum de trabalho para o futuro, uma língua comum, o respeito mútuo, gerando um profundo sentimento de confiança e um forte senso de comunidade. Por outro lado, quando as pessoas acreditam que a sociedade se preocupa pouco com o bem-estar, existe um perigo real de enfraquecimento dos laços, criando a fragmentação comunitária (JIFE, 2011)

 Os problemas sociais e de saúde existentes nas comunidades e sociedades, segundo o relatório da JIFE, são proporcionais à fragmentação e a falta de um sentido de coesão. Por essas circunstancias o abuso de drogas e o crime, possivelmente, são apenas os sinais mais visíveis.

Uma Equipe de Saúde da Família atua em territórios adscritos de comunidades com uma ampla diversidade de características que singularizam contextos sociais e a identidade comunitária. O Lócus Social onde a vida acontece, é composto por relacionamentos afetivos, trocas de experiências e saberes da realidade, seus problemas mais comuns, as soluções encontradas e que mobilizam a comunidade a enfrentá-los. Essa organicidade em comuna reflete-se em uma maior resposta a necessidade de produção de vida dentro destes territórios e assim, tornam os habitantes que vivem nessas comunidade mais cientes do sentimento de pertencimento e de autonomia para estabelecerem relacionamentos afetivos entre si pautados por uma valorização da autoestima e do respeito mútuo.

Os interesses compreendidos neste domínio preveem garantia de direitos e de cidadania dos sujeitos que compõe coletivos, fortalecimento do território e acesso comum aos benefícios comunitários, dissolvendo assim os privilégios particulares.

No mundo contemporâneo vê-se o desencadear de diversos processos individualizantes, em que as pessoas ficam cada vez mais restritas a espaços privados, a partir de uma construção de uma imagem do espaço público como perigoso e inóspito. Assim enfraquecem-se laços entre vizinhos e amigos, gerando sujeitos e famílias cada vez mais isoladas, com redes sociais de suporte frágeis. As equipes de saúde muitas vezes reforçam essa lógica, a partir da estigmatização das pessoas que circulam “demais” pelas ruas do bairro, ocupam praças ou muros, e da evitação de utilizar os espaços públicos para atividades de saúde. É comum ouvir falas como: “evite a praça, porque é lugar de drogado”, “coloque seu filho em atividade no turno inverso, pois esse bairro é cheio de más influências”, falas que desqualificam a apropriação dos usuários de seu espaço de vida.

Ao analisar os territórios, aspectos relacionados à segurança podem ser muito emblemáticos da potência da coesão comunitária. A partir da forte coesão comunitária, os indivíduos se sentem mais seguros em viver naquele território. O reconhecimento dos limites de convivência e as condutas que permeiam uma ética local de andar a vida em uma comunidade vitalizada repercutem também na forma como essa se protege de seus maiores riscos e vulnerabilidades.

 A ética local na vida em comunidade, se valorizada e respeitada, incide fortemente também nos níveis de confiança das relações afetivas que os integrantes dessa comunidade têm uns com os outros e com os profissionais da unidade de saúde.

O nível de solidariedade entre vizinhos, amigos e a força dos laços interpessoais nas comunidades cumprem função na promoção da saúde mental. É frequente a existência de associações de moradores, grupos religiosos, espaços de cultura tradicional ou moderna – dos centros de tradição, passando pelas rodas de música nos bares e chegando aos bailes funks -, que são formas de as pessoas produzirem sentido para sua existência e que podem ser acionados e fortalecidos pela equipe de saúde. Itens ligados à atividades culturais são apresentados no quadro de ações do Domínio Diversidade Cultural.

Fonseca, et. Al (2008) trazem, a partir de uma revisão bibliográfica, dados quanto a menor incidência de sofrimento mental entre pessoas com rede de suporte social fortes, incluindo como indicador o número de familiares em quem se confia, participação em atividades artísticas ou esportivas e frequência em grupos religiosos. A potencialização de redes de suporte social existentes em becos, ruas, bairros, associações pode tanto fazer parte dos projetos terapêuticos, quanto cumprem por si uma função protetiva.       

O processo de criação da função dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) baseou-se em uma aposta na potência de cuidado existente nas comunidades. Esse foi inspirado em experiências no interior do Ceará, onde mulheres do sertão eram contratadas para intervir na diminuição dos efeitos da seca prolongada a partir de acompanhamento domiciliar, priorizando crianças e mulheres em idade fértil, afetando na diminuição da mortalidade infantil. A grande invenção está no entendimento de que pessoas da comunidade podem atuar muitas vezes de forma mais efetiva e interessante que técnicos, por um conhecimento dos códigos de comunicação, afeto e cuidado operantes naquele território. A inserção dos ACS nas ESF e a proximidade dos profissionais aos locais onde se constrói a vida dos usuários propiciam que esses códigos sejam incorporados à forma de fazer saúde.


Última atualização: quarta-feira, 29 março 2017, 10:35 AM