Os profissionais de saúde – sobretudo os da Estratégia de Saúde da Família – devem ser agentes propagadores de saberes ligados ao bem viver na comunidade. Isso significa dizer que faz parte de suas atribuições conhecer modos como as pessoas vivem (seus hábitos, suas verdades, aquilo que fazem bem e aquilo que pode ser melhorado) e trabalhar junto a elas na consolidação de um território que produza qualidade de vida.

Paulo Freire com sua obra nos ensina sobre o valor do saber popular. Segundo ele, para se efetivar o desenvolvimento de uma sociedade, é necessário aplicar metodologia de educação crítica, ou seja, em que as pessoas aprendem a partir de seus conhecimentos, em uma abordagem de problematização da sociedade.

Os grupos de pessoas que compõem o conjunto de uma comunidade possuem saberes diversificados a respeito dos tantos domínios da vida (família, trabalho, saúde, amizade, comunidade, prazer, educação, saber, cultura, arte, etc.). As pessoas aprendem com seus parentes mais próximos, seus vizinhos, seus colegas e amigos a lidar com as situações cotidianas. Isso é educação, é troca interpessoal em que as pessoas compartilham saberes e experiências. O produto dessa troca será manifestado na maneira como as pessoas se desenvolverão na vida: nas relações com as pessoas que vêm a conhecer e a se relacionar, no universo escolar, no mundo do trabalho, na vivência cultural e esportiva, etc..

A escola é um ponto central do território, sendo algumas vezes junto à unidade de saúde um dos únicos equipamentos públicos existentes. Os ritmos da vida se desenvolvem em torno dela, os momentos de levar e buscar as crianças, as reuniões de pais. Identificar os recursos que a instituição tem pode ser um bom ponto de partida para intervenções conjuntas.

Atualmente já existem programas instituídos de parceria entre escolas e UBS que incluem ações condizentes com propostas de educação para o bem viver, tratando dos eixos de direito sexual e reprodutivo e prevenção das DST/AIDS e prevenção ao uso de álcool, tabaco, crack e outras drogas. Os diversos saberes já existentes na área da saúde sobre esses temas, principalmente o referencial da redução de danos, podem ser importantes subsídios para articulações.

É importante que a ESF possa construir ações em conjunto com as escolas, com objetivo de evitar a estigmatização das “crianças problema”. Com frequência, profissionais da educação vem às unidades de saúde buscando soluções para casos de alunos, muitas vezes já diagnosticados como “hiperativos”, “drogados”, ou provindos de uma “família desestruturada”. O encontro intersetorial é uma oportunidade para repensar essas situações, partindo do conhecimento que profissionais de ambos os setores tem das famílias para explorar de forma mais complexa esse contexto, levando em conta a sua história, situação socioeconômica, inserção no território e a dinâmica familiar. Uma criança com baixo desempenho escolar pode estar passando, por exemplo, por uma situação de conflito entre os pais em casa; ela pode aprender mais facilmente por atividades lúdicas e os educadores não estão conseguindo achar esse caminho de aproximação; pode estar sofrendo por um diagnóstico precipitado dito por um profissional de saúde; ou pode estar carecendo de momentos de diversão e circulação. Assim deslocamos o foco da criança isolada, que muitas vezes leva ao excesso de diagnósticos e a medicalização, passando a pensar a família, as práticas da escola e de serviços de saúde e a dinâmica comunitária como partes do problema e base para as soluções.

Vale apontar para a questão de se trabalhar em ambientes que sejam conhecidos como “violentos”. Muitas vezes, nestes locais existe a representação de periculosidade muito atrelada a determinados grupos de pessoas. Para que a ESF trabalhe de modo a fazer a diferença, é necessário que ela atue para além de um pré-julgamento que somente identifique “pessoas perigosas” e não critique tal contexto. É importante promover aproximação em relação a todas as pessoas da comunidade, buscando conhecer de que modo estes grupos se inseriram na comunidade, quais fatos podem ter colaborado para que a situação se configurasse como tal. Neste sentido, as equipes de SF devem atuar de maneira livre de julgamentos de valor.

A ação de compartilhar possibilita a criação de laços protetivos ao grupo. A ESF deve se empenhar em conhecer laços já existentes entre membros de mesma família ou na comunidade. E buscar fortalecê-los colocando as pessoas a partilharem entre si os saberes que possuem e o que aprenderam com sua experiência de vida.

Ao identificar a aptidão de alguns membros da comunidade para lidar com situações especificas, é possível convidá-los a dividir seus conhecimentos com pessoas que se beneficiariam deste tipo de vínculo e informação. Não somente quem escuta estará se beneficiando, mas quem comunica a sua experiência também se sentirá valorizado em sua experiência singular.

Como objetivo maior, pode-se pensar na educação para a transformação da sociedade. Neste sentido, chamamos o autor Bernardo Toro, que disserta sobre o contexto atual da sociedade latino americana, com ênfase para a brasileira. O pensador aponta para a necessidade de nos mobilizarmos socialmente para a implementação da democracia na nossa sociedade (2004). A construção do público como espaço de todos, possibilitado pela participação de toda a sociedade, abarcaria o interesse comum da população.

O sociólogo Jessé de Souza aborda sobre a manutenção da pobreza de boa parte da sociedade brasileira por meio da manutenção do que chamou de violência simbólica, que ocorre de forma disfarçada.  O autor afirma que para elaborar e implantar políticas públicas que visem a inclusão social é necessário levar em conta que boa parte da população teve pouca oportunidade de se pensar como cidadão direito e com possibilidades de inserção no sistema produtivo, o que dificulta seu acesso a essas políticas. Criam-se assim ciclos de segregação social com poucas possibilidades de rompimento.

Assim, a aposta é de que os serviços públicos auxiliem no desenvolvimento integral da população, ocupando-se também de trilhar junto aos usuários um caminho que os leve ao progressivo reconhecimento e defesa de seus direitos – moradia, trabalho, educação, cultura, etc... As ESF podem contribuir para a implementação de ações de educação como as abordadas, valorizando a riqueza cultural do território e aproveitando-se da função de agente público para potencializá-la a partir do contato com os mecanismos de garantia de direitos. Assim pensa-se uma inclusão que leve em conta as especificidades da comunidade, inclusive no que ela resiste a um sistema individualizante e competitivo, podendo-se pensar a sustentabilidade a partir de outras lógicas. 

Última atualização: quarta-feira, 29 março 2017, 10:35 AM