Parte Alta da Favela Curumatã, Viela do Sapateiro. Por um pequeno vitrô da casa sete, no meio da estreita viela, é possível observar o vai e vem de moradores que, indiferentes, disputam a passagem com os frequentes usuários de crack e maconha, que consomem ali mesmo, a droga que se pode comprar na entrada da viela. Nem tão indiferente, dona Élida, que mora numa casa no fim da viela, passa reclamando, protestando, resmungando. Parece que reclama tanto, que ninguém mais liga.  Na casa sete, reside Taianne. Ela mesma não se incomoda com o movimento em sua porta e diz que essa agitação ajuda a espantar a solidão. Por ser também usuária de drogas, conhece muitos daqueles que frequentam sua porta. Mas nem sempre a situação é amistosa. Ela conta que, certa vez, se escondeu embaixo da cama quando um tiroteio aconteceu bem na entrada da sua casa. Instante depois, ao abrir a porta, lá estava um conhecido estirado, abatido por tiros.

Taianne, agora com 25 anos, voltou a morar na Viela do Sapateiro já faz uns dois anos. Mora com um filho e com o seu atual companheiro, desde o falecimento de sua mãe que ali residiu por muito tempo. A mãe comprou aquela casa quando Taianne era ainda menininha. Com a mãe, tinha uma relação conturbada a ponto de não chorar sua perda. Lembra que soube do seu falecimento por uma vizinha enquanto usava drogas em algum ponto do centro da cidade. A vizinha sabia que Taianne, naquela ocasião, era facilmente encontrada nas ruas do centro, onde passava a maior parte do tempo. Taianne sabia que a mãe estava muito doente. Isso lhe causava algum mal estar, pois era sua mãe quem cuidava do filho que Taianne teve há quatro anos, na época em que se prostituía para adquirir drogas.

Além da presença de usuários de drogas, os moradores da Viela do Sapateiro passaram a receber a visita de um Agente Comunitário de Saúde (ACS). Isso, após a atuação insistente de uma liderança comunitária da região que negociou isso com os chefes do tráfico local. Até então, estava impedida a entrada da equipe de saúde que já havia sido ameaçada por traficantes.

O ACS que visitou Taianne apresentou o caso à equipe do NASF, assim:

Taianne começou a usar drogas aos 16 anos. Relata que hoje em dia, usa Crack diariamente. Isso já dura pelo menos uns dois anos, mas já foi pior. Viveu na rua por aproximadamente três anos depois de ser expulsa de casa pela mãe. Sobre essa experiência na rua, conta que sofreu muito: “bateu, apanhou, contraiu doenças”, diz. Contudo, ressalta um ponto positivo da vida nas ruas: “entre aqueles que moram na rua não tem diferença de raça ou classe social que impeça as pessoas de se ajudarem”. 

Taianne questionava a rigidez, severidade e falta de afeto de sua mãe. Elas nunca se deram muito bem, mas com o tempo a intransigência da mãe foi se acentuando com modo de vida que Taianne vinha levando. As discussões se tornaram constantes. Sua saída de casa se deu depois que a mãe percebeu a falta de alguns objetos em casa. Naquela época, Taianne já tinha parado de estudar e não conseguia emprego.  Nesse tempo, morava na casa somente ela e mãe. Lembra vagamente do seu pai, com quem pouco conviveu. Guarda recordações suficientes para classificá-lo como violento. Ele foi embora de casa há muito tempo e sua mãe evitava falar sobre ele. Numa determinada época da vida morou também com o padrasto. Fala dele afetuosamente destacando, com certo ar de tristeza, que ele bebia muito. Relata, compadecida, o dia em que ele morreu por bala perdida. Depois que ele se foi, sua mãe, que fazia bicos de passadeira em casa, passou a trabalhar como faxineira e permanecia o dia inteiro fora.

Atualmente, Taianne continua sem trabalho e trouxe seu namorado para morar consigo. Conheceu seu companheiro fazendo “programa” nas ruas do centro. Fala que desde que o conheceu nunca mais se prostituiu.  Ele é complacente com a condição de Taianne e sustenta seu uso de drogas. Ele também é usuário de drogas. Mantém o consumo dos dois trabalhando como pedreiro. Taianne também recebe benefício social por conta de seu filho que tem problemas mentais, segundo ela, a criança tem paralisia cerebral. Observando a casa achei que o cuidado com o filho é negligente. O ambiente apresenta pouca higiene e a criança fica a maior parte do tempo deitada, contudo, demonstrou certo afeto quando se referia a ela. Informou que o filho passa por acompanhamento especializado. Ainda não foi possível confirmar a veracidade dessa informação e sei pouco sobre o problema da criança. Durante a conversa, ela foi muito evasiva sobre esse assunto e ficava irritada quando eu a interrogava. O companheiro não estava em casa quando fiz essa visita.

Taianne é muito próxima de uma vizinha que eu também visitei. Essa vizinha, a Dna Élida, é uma velha conhecida da UBS. Diferentemente de Taianne - que nunca procurou o posto de saúde - Dna Élida sempre vai ao serviço em busca de calmantes porque sofre de problema nervoso, além de estar com a hipertensão descontrolada há alguns anos. Por isso fui orientado a também visita-la. Entre um assunto e outro descobri que Dna Élida é quem fica com a criança quando Taianne sai de casa. Soube também que foi ela quem procurou Taianne pelas ruas da cidade quando da morte de sua Mãe.  Nessa visita à Dna Élida, ela falou que teve um filho que trabalhava para o tráfico e que foi morto numa ação policial na Viela do Sapateiro. Coincidência ou não, isso ocorreu na mesma ação que tirou a vida do padrasto de Taianne por bala perdida.

Dona Élida também foi mencionada na conversa que tive com Taianne, que demonstrou grande respeito por ela. Segundo Taianne, apesar dela viver reclamando e ser um pouco rabugenta, foi Dona Élida quem cuidou de seu filho quando sua mãe, debilitada pela doença, já não tinha mais forças. Percebi mesmo uma forte ligação entre Taianne e Dna Élida. Nem sei se por gratidão - por ter cuidado do filho na falta de sua mãe-, ou por culpa - por tê-lo abandonado para morar na rua-.  Taianne comenta que Dna Elida, o companheiro e seu filho, são as únicas pessoas pelas quais valeria a pena mudar de vida. 

Foi diante desse conjunto de situações, com ar de impotência, que o ACS seguiu contando aos seus colegas sobre essas vidas que conheceu nessa primeira aproximação. Prosseguiu falando sobre Taianne, Dna Élida e sobre todas as outras pessoas que viu e que não viu, mas que faziam parte daquilo tudo. Começou a perceber que os destinos daquela gente não se cruzavam por coincidência. Havia algo comum a todas elas. De um modo ou de outro, a violência corriqueira daquela comunidade perpassava a vida das pessoas que um dia transitaram pela Viela do Sapateiro. Lembrou-se do líder comunitário que não conheceu, mas que possibilitou sua entrada na parte alta da favela Curumatã. Lembrou também daquelas pessoas que passavam indiferentes a tudo. Concluiu que todos faziam parte daquilo.  Ficou intrigado e, de certo modo, assustado com o tamanho do desafio que seu trabalho lhe impunha. Ao longo da conversa com seu grupo de trabalho, deu-se conta que ele mesmo estava muito vinculado com a situação dos moradores da Viela do Sapateiro. Percebeu que essa vinculação não poderia ser atribuída somente à natureza de seu trabalho ou ao fato de também residir naquela comunidade. Mas, sobretudo, pelo modo como aquelas histórias o tocaram.

Última atualização: quarta-feira, 29 março 2017, 10:34 AM