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Saúde Mental
Sobre padrão de vida e felicidade, a discussão acontece em torno do nível de consumo/acesso a bens e serviços que uma pessoa possui. Isso está relacionado não apenas aos rendimentos financeiros, mas também à possibilidade de acesso a lazer, cultura, esporte, saúde etc, que quando disponibilizados à população representam fatores de qualidade de vida.
Na avaliação da FIB, o padrão de vida é um dos principais determinantes para a felicidade, por isso, torna-se fundamental levar essa questão para o cotidiano do trabalho na atenção básica e discutir o acesso das pessoas que vivem a experiência do sofrimento psíquico aos seus direitos básicos, inclusive o direto à saúde.
O acesso da pessoa com a experiência do sofrimento psíquico na atenção básica ainda é amplamente discutido no cotidiano desses serviços. Vários são os fatores que colaboram para isso, podemos citar a pouca circulação e acesso dessa população a qualquer serviço, seja ele de saúde ou não; o estigma que os relaciona à violência e a periculosidade; a dificuldade das equipes de saúde em acolher, entre tantos outros.
Partindo desta realidade propõe-se a reflexão de alguns aspectos que podem contribuir para a construção do cuidado integral das pessoas que vivem a experiência do sofrimento psíquico. Vale a pena lembrar que muitas das demandas apresentadas por essas pessoas, às equipes de saúde da família, são questões comuns no serviço e que a forma de cuidado não deve ser diferente do que podemos pensar para a população em geral.
Há duas situações, bastante comuns nos serviços de saúde, que mobilizam as equipes de diferentes maneiras. A primeira, e talvez a mais comum de todas, é daquele usuário, muitas vezes denominado como “poliqueixoso”, que procura intensamente os serviços com diversas queixas, tanto físicas quanto psíquicas, solicitando novas medicações, consultas e exames.
Nesses casos são comuns os encaminhamentos diversos, a alta demanda por consultas médicas, a prescrição indiscriminada de medicamentos (como benzodiazepínicos, que geram dependência), e o automatismo no oferecimento de respostas mais conhecidas e rápidas (psicoterapia, encaminhamentos, etc) que produzem mais efeito paliativo/sintomático do que a construção de respostas para as verdadeiras necessidades dos sujeitos. Tais intervenções muitas vezes geram insatisfação tanto para os usuários, que não se sentem cuidados, quanto para própria equipe que pode se sentir frustrada e duvidar de sua capacidade técnica de atuação. No entanto, esses casos podem servir de base para a discussão do que é acesso: apesar de comparecer diversas vezes ao serviço esta pessoa tem suas demandas compreendidas?
A segunda situação comum na atenção básica são as pessoas que já possuem algum tipo de transtorno mental e/ou pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas, os ditos “pacientes graves” que não conseguem acessar os serviços de saúde, tanto devido às dificuldades pessoais de acessar qualquer serviço, quanto pela dificuldade da equipe de recebê-lo. Os casos mais graves de saúde mental despertam medo e ansiedade nas equipes, pois dificilmente cabem em protocolos de atendimento e também não apresentam resultados rápidos e claros, como uma medicação para controle pressão arterial em uma crise hipertensiva, por exemplo.
Nesses casos, o trabalho é de transformação de paradigma e de produção de cidadania, pois diferentemente do primeiro caso de uso excessivo do serviço, essa população não sabe de seu direito e também não lhe é apresentado à oportunidade do cuidado. Sendo fundamental a atuação do NASF em suas dimensões político-pedagógica (prioritariamente com a equipe de saúde família) e técnica assistencial (com equipe e usuário) no fazer junto, auxiliando no rompimento do estigma e na produção de cuidado deste usuário.
Na discussão sobre o padrão de vida, apresentam-se três importantes eixos utilizados na reabilitação psicossocial, de SARACENO (2001), como orientador do cuidado, que são:
Habitar
- Pensar o espaço de moradia
- Avaliar a qualidade da mesma
- Qual o poder de negociação deste usuário dentro deste ambiente
Trabalho
- A pessoa exerce alguma atividade laboral, recebe por ela? Tem dívidas? As pessoas ao seu redor reconhecem valor social neste trabalho?
Um dos aspectos importantes no entendimento do contexto de vida de uma pessoa é saber como a mesma relaciona-se com seu trabalho e sua renda. Isto não se relaciona somente com uma avaliação de quanto a pessoa ou a família recebe de salário, mas como esta faz a gestão de seu dinheiro, pois renda alta com dívida alta também é produtora de sofrimento, o mais interessante é entender se esta pessoa, ou família, consegue fazer uma boa gestão de seu dinheiro.
Ademais, sabe-se que o acesso das pessoas com a experiência do sofrimento psíquico ao mercado de trabalho formal ainda é baixo, por isso, a fomentação de projetos de geração de trabalho e renda é importante instrumento para a construção da cidadania dessas pessoas, além disso, tais projetos potencializam o fortalecimento da comunidade.
Rede Social de Suporte
Existe um terceiro eixo que Saraceno refere em relação à reabilitação psicossocial, que é a Rede Social de Suporte. Trata-se de um aspecto que está estreitamente relacionado à qualidade do padrão de vida. Contudo, optou-se por trabalhá-lo no Domínio Vitalidade Comunitária, a fim de respeitar a lógica e divisão dos domínios propostos pela FIB.