1. Distribuição da doença no mundo e no país

O primeiro isolamento do vírus Zika ocorreu em 1947, em sangue de macaco do gênero Rhesus e em mosquitos da espécie Aedes (Stegomyia) africanus na floresta de Zika, Uganda (DICK; KITCHEN; HADDOW, 1952; HADDOW et al., 2014). Posteriormente, em 1954, foram identificados três casos de infecção em humanos durante uma epidemia na Nigéria (MACNAMARA, 1954). O vírus continuou dispersando-se, de forma esporádica para outras regiões, sendo evidenciados alguns surtos em diferentes países da África, da Ásia e Ilhas do Pacífico (IOOS et al., 2014; FAYE et al., 2014). 

Em 2007, o vírus Zika emergiu pela primeira vez fora da África e da Ásia causando uma epidemia na Ilha de Yap (Micronésia) que infectou aproximadamente 70% dos moradores (DUFFY et al., 2009), seguida por uma grande epidemia na Polinésia Francesa, em 2013-2014 (MUSSO; CAO-LORMEAU, 2014). Subsequentemente, o vírus dispersou-se para outras ilhas do Pacífico (DUPONT-ROUZEYROL et al., 2015).

Desde 2014, casos de circulação do vírus Zika foram detectados no continente Americano. Em fevereiro desse ano, as autoridades de saúde pública do Chile confirmaram o primeiro caso de transmissão indígena do vírus na Ilha de Easter; posteriormente, outros casos foram reportados. Mais recentemente, desde outubro de 2015, casos de infecção pelo vírus Zika foram confirmados no México, Paraguai, Guatemala, El Salvador, Colômbia, Panamá, Honduras, Ilha de Santiago, Cabo Verde e na Venezuela (http://www.who.int/csr/don/en).

No Brasil, casos de doença exantemática têm sido reportados desde final de 2014 e, no começo do ano de 2015, pacientes da cidade de Natal, estado de Rio Grande do Norte, apresentaram sintomas compatíveis com a febre da dengue. Neste mesmo ano, foram identificados os primeiros casos do vírus Zika em amostras de soro de pacientes da cidade de Natal (estado de Rio Grande do Norte) (CARDOSO et al., 2015; ZANLUCA et al., 2015) e de Camaçari (Bahia) (CAMPOS; BANDEIRA; SARDI, 2015), com cocirculação de dengue e chikungunya. As análises filogenéticas dos isolados demonstraram 99% de identidade com a linhagem asiática, reportada em epidemias das Ilhas do Pacífico (MUSSO et al., 2014a).

Mais recentemente, o vírus Zika circula em outros estados como: São Paulo, Sergipe, Paraíba, Maranhão, Rio de Janeiro, Ceará, Roraima, Alagoas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Piauí, Pernambuco e Pará (Marcondes & Ximenes, 2015; Vasconcelos, 2015; http://www.who.int/csr/don/en).

De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Vigilância em Saúde até a semana epidemiológica 48, 18 estados da federação confirmaram casos autóctones de febre pelo vírus zika. Veja o mapa abaixo ou entre no seguinte link para conhecer os dados atualizados (http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/dezembro/23/2015-049---Dengue-SE-48---para-publica----o-21.12.15.pdf)

Figura 1- Unidades da Federação com casos autóctones de febre pelo vírus Zika com confirmação laboratorial, Brasil, 2015.

2. Período de incubação

Estudos mostram que o período de incubação em mosquitos é cerca de 10 dias e no homem de 3 a 6 dias. Os hospedeiros vertebrados do vírus incluem macacos e seres humanos 

3. Modo de Transmissão

Vetorial

O vírus Zika é usualmente transmitido ao homem pela picada de mosquitos do gênero Aedes, dentre eles, o Ae. africanus, Ae. apicoargenteus, Ae. vitattus, Ae. furcifer, Ae. luteocephalus, Ae. hensilli, e Ae. aegypti. A espécie Ae. hensilii foi a predominante na Ilha de Yap durante a epidemia de 2007. Nas Américas, o principal vetor é o Ae. aegypti.

Transmissão perinatal

Há evidências de que a mãe infectada com o vírus Zika nos últimos dias de gravidez pode transmitir o vírus ao recém-nascido durante o parto. Detectaram o vírus no soro de dois recém-nascidos, utilizando a técnica de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa (RT-PCR), encontraram evidências de infecção pelo vírus Zika nos recém-nascidos.

Adicionalmente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em dezembro de 2015, emitiu um alerta epidemiológico após evidenciar um aumento no número de casos de microcefalia no Brasil. O vírus Zika foi detectado no líquido amniótico de duas mulheres grávidas cujos fetos apresentaram danos neurológicos sérios.

Transmissão sexual

Mencionaram evidências clínicas e sorológicas de transmissão do vírus Zika por contato direto pessoa-pessoa. Trata-se de um cientista dos Estados Unidos (estado de Colorado) que contraiu o vírus em 2008, trabalhando na Vila de Bandafassi, região endêmica localizada em Senegal e que, posteriormente, ao voltar para casa transmitiu o vírus para a esposa provavelmente por contato sexual. Duvida-se da possível transmissão do vírus pela picada de mosquito considerando-se que a esposa adoeceu após 9 dias do marido ter voltado para casa e, o período de incubação extrínseca é superior a 15 dias. Adicionalmente, na localidade onde foi reportado o caso normalmente é capturada a espécie Aedes vexans, do subgêneroAedimorphus, e os vetores do vírus Zika são, principalmente, do subgênero Stegomyia.

Da mesma forma, demonstraram a presença do vírus em sêmen de paciente de Taiti que apresentou sintomas compatíveis com infecção pelo Zika além de hematospermia (presença de sangue no esperma). O resultado sugere replicação viral no trato genital e a possibilidade de transmissão pela via sexual.

Recentemente o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos da América) publicou recomendações para prevenir a transmissão do vírus por via sexual, baseado no relato de contaminação sexual pelo vírus. Leia a matéria neste link.

A Fiocruz divulga ainda a possibilidade da contaminação através da saliva, além da via sexual. Leia a matéria neste link.

Transmissão por transfusão de sangue

Detectaram vírus Zika através da técnica RT-PCR, em amostras de sangue de doadores que estavam assintomáticos para o momento da doação. Os resultados permitiram alertar as autoridades de saúde sobre o risco de transmitir o vírus através da transfusão de sangue.

O vírus Zika foi isolado, pelo Instituto Adolfo Lutz e, confirmado pelo Instituto Evandro Chagas, de um paciente que recebeu uma transfusão sanguínea de um doador que estava em período de incubação do vírus. A possibilidade de o vírus Zika ser transmitido por sangue e hemoderivados levanta a questão da inclusão desta (e outras?) arbovirose(s) na triagem de doadores de sangue.

4. Características do vírus

O vírus Zika (ZIKV) é um arbovírus (siglas em inglês de arthropod-borne-virus) emergente, pertencente ao sorocomplexo Spondweni, gênero Flavivirus, família Flaviviridae, que apresenta relação genética e sorológica com outros flavivírus de importância em saúde pública como o vírus da dengue, o da febre amarela e o do oeste do Nilo. O genoma do vírus é RNA, de fita simples, polaridade positiva e tamanho aproximado de 11 kilobases, que codifica para uma poliproteína com três componentes estruturais (capsideo [C], premembrana [prM] ou membrana [M] e envoltura [E]) e sete proteínas não estruturais (NS1, NS2a, NS2b, NS3, NS4a, NS4b e NS5). Estudos filogenéticos mencionam três linhagens do vírus: o da África do Leste, o da África do Oeste e o Asiático. Na região leste da África o vírus é mantido em ciclo silvestre envolvendo, principalmente, primatas não humanos e mosquitos do gênero Aedes; o homem é considerado hospedeiro amplificador primário em áreas onde não há primatas não humanos.

5. Tropismo do vírus

Existem, até o momento, escassas informações sobre a patogênese do vírus Zika, porém, os flavivírus replicam-se inicialmente nas células dendríticas e citoplasma dos fibroblastos e queratinócitos da epiderme e derme, dispersando-se posteriormente para os nodos linfáticos e a corrente sanguínea.

Através de estudos realizados com a cepa do vírus isolada nos surtos acontecidos nas Ilhas do Pacífico (Yap em 2007 e Cambodia em 2010), identificaram os receptores que facilitam a entrada e adesão do vírus às células alvo, dentre eles, DC-SIGN, AXL, Tyro3 e TIM-1.

O vírus tem tropismo pelo sistema nervoso central. Após o final da epidemia de 2013 houve um aumento de 20 vezes da incidência de Guillain-Barré na Polinésia e sintomas neurológicos em um viajante retornando de Bornéu apresentando dificuldades auditivas bilaterais durante o curso da doença (TAPPE et al, 2015), no entanto, os mecanismos não estão claros.

6. Susceptibilidade e imunidade

Por se tratar de infecção nova no país, a susceptibilidade é universal. Caso a infecção pelo vírus Zika se comporte como os demais flavivírus, é possível que ocorra imunidade permanente. No entanto, tal fato deve continuar sendo estudado para que se obtenha conclusões definitivas. Toda a população pode ser afetada, na dependência da presença do vetor e do vírus. Ressaltando que somente 20% das pessoas irão desenvolver a doença clinicamente.

7. População de risco

Gestantes nos primeiros três meses de gravidez (primeiro trimestre), que é o momento em que o feto está sendo formado. O risco parece existir também, porém em menor grau, quando a virose é adquirida no 2º trimestre de gestação. Aparentemente, a partir do 3º trimestre, o risco de microcefalia é baixo, pois o feto já está completamente formado.

Última atualização: quarta-feira, 29 março 2017, 10:08 AM